23 out. 2026 · 8 min de leitura · Andrii Sukhariev

Quanto do seu produto é «feito na Europa»? O Industrial Accelerator Act e a sua lista de materiais

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Na proposta de Industrial Accelerator Act da Comissão, de 4 de março de 2026, um veículo elétrico comprado com dinheiro público tem de ser montado na UE e pelo menos 70% do valor dos componentes, sem a bateria, tem de ser de origem na União, decidida peça a peça pelas regras aduaneiras da UE. Num exemplo ilustrativo, sobre a lista de materiais de um motor de drone, as peças de fornecedores da UE são 53% do valor, 64% se os ímanes viessem de uma fábrica da UE, e o motor pode ainda assim contar como componente de origem na União. O ato ainda não é lei.

Na proposta de Industrial Accelerator Act da Comissão Europeia, de 4 de março de 2026, um veículo elétrico comprado através de contratação pública tem de ser montado na UE e pelo menos 70% do preço à saída de fábrica dos seus componentes, sem a bateria, tem de ser de origem na União [2]. A origem é decidida componente a componente pelas regras aduaneiras da UE, não pelo sítio onde comprou a peça [3] [7]. Fizemos as contas sobre uma lista de materiais ilustrativa, a de um motor de drone típico: as peças de fornecedores da UE são 53% do custo de série, 64% se os ímanes viessem de uma fábrica da UE, e o motor acabado pode ainda assim contar como componente totalmente de origem na União. O ato ainda não é lei, e o Conselho continua dividido sobre que países contam [6].

Factos principais

O que exige, na prática, o Industrial Accelerator Act?

O ato visa o dinheiro público: contratação, leilões e regimes de apoio. A ambição declarada é subir a indústria transformadora de 14,3% do PIB da UE em 2024 para 20% em 2035 [4] [5]. Fixa exigências de «origem na União» ou de baixo carbono para vários grupos de produtos [2] [3]:

Duas definições contam para os fornecedores. «Componentes do grupo motopropulsor elétrico» são a eletrónica de potência, os motores elétricos e os eixos elétricos e os seus componentes, rotores e estatores [3]. «Sistemas eletrónicos principais» incluem o hardware de assistência à condução, como lidars, radares, câmaras e centralinas, além dos computadores centrais e da eletrónica do chassis [3]. Se fabrica ou compra estas peças, os clientes vão pedir-lhe dados de origem.

Já é lei?

Não. O Parlamento entregou o processo em conjunto às comissões da indústria, do mercado interno e do comércio, e esperava-se um relatório conjunto em setembro de 2026 [5]. No Conselho, o documento de opções da Presidência, de 30 de julho, diz que as posições dos Estados-Membros «diferem» [6]. As opções vão de só a UE27 até à UE27 mais os parceiros de comércio livre e de contratação pública, com ou sem teste de propriedade [6]. Os Estados-Membros deram a sua opinião a 17 de setembro e o COREPER I discute um documento a 7 de outubro de 2026 [6]. Conte com mudanças nos limiares, na lista de países e nas datas.

Os fornecedores automóveis querem-no mais exigente: a CLEPA avisa que o conceito pode tornar-se «simbólico em vez de eficaz» [8]. A SMEunited quer que a elegibilidade dependa de onde os bens são feitos, não de quem é dono da empresa, e que se reutilizem as declarações dos fornecedores em vez de criar nova papelada [9].

O que conta como «origem na União»?

A proposta diz que a origem é determinada pelo Código Aduaneiro da União [3]. Na prática [7]:

  • Um bem feito inteiramente num país é «inteiramente obtido» nesse país.
  • Um bem feito em dois ou mais países é originário do país onde sofreu a última transformação substancial.
  • As «operações mínimas» nunca conferem origem, e o Anexo 22-01 das regras aduaneiras fixa testes específicos para algumas posições pautais.

Depois, a proposta alarga o círculo: na contratação pública, o conteúdo de países com acordo de comércio livre com a UE, união aduaneira ou o Acordo sobre Contratos Públicos da OMC seria «considerado de origem na União», salvo se a Comissão excluir um país [3]. É exatamente isso que o Conselho está a discutir [6]. Se precisa de certeza para um produto, as alfândegas podem emitir uma Informação Vinculativa em matéria de Origem, que vincula todas as alfândegas da UE e vale normalmente três anos [10].

Um exemplo: quão «europeu» é um motor de drone?

Este é um cálculo ilustrativo sobre um produto típico: um motor brushless de rotor externo de tamanho 3115 e 900KV para drones de carga. Os valores são preços unitários de série indicativos para uma série de 1.000 unidades, e os países dos fornecedores são uma combinação plausível para um motor bobinado em Portugal. Tratamos o motor como componente do grupo motopropulsor elétrico, a categoria abrangida pelo teste posterior de 50% [2] [3].

Linha da lista de materiaisPreço de série (€)País do fornecedor no exemploOrigem assumida
Base, alumínio 6061, CNC1,46PortugalUE
Tampa da campânula, alumínio 7075, CNC2,04PortugalUE
Anel de retorno em aço0,42PortugalUE
Veio, aço 52100, temperado e retificado0,63PortugalUE
Pacote do estator, aço elétrico de 0,2 mm cortado a laser1,75AlemanhaUE
14 ímanes NdFeB em arco1,30Países Baixos (fornecedor especializado)Fora da UE: país de sinterização desconhecido
Rolamentos, fio de bobinagem, cabos, fixadores, cola4,25Catálogos onlineFora da UE: origem não registada
Total11,85

Os resultados:

  • Quota de fornecimento europeu, em sentido estrito: 6,30 € de 11,85 € = 53%.
  • Se os ímanes viessem de uma fábrica da UE, como a linha de Narva, na Estónia [12]: 7,60 € = 64%.
  • Se as linhas de catálogo viessem da UE ou de parceiros de comércio livre e o âmbito alargado sobreviver no Conselho [6]: 10,55 € = 89%.

Os ímanes são a linha que faz a diferença. A UE compra à China 98% dos seus ímanes de terras raras [11], e um fornecedor neerlandês não torna um íman neerlandês: a origem é onde foi sinterizado e moldado [7].

Agora a parte que a maioria dos fornecedores não vê. A regra dos veículos conta cada componente como de origem na União ou não [2]. Se o motor for bobinado e montado em Portugal e isso contar como a sua última transformação substancial, o motor inteiro de 11,85 € pode contar como de origem na União para o fabricante do veículo, embora só 53% do valor das suas entradas venha da UE. Se conta ou não depende da regra da sua posição pautal no Anexo 22-01 [7], e é precisamente isso que um pedido de Informação Vinculativa em matéria de Origem resolve [10].

Pressupostos: preços de série indicativos, não orçamentos; a linha «outros» agrupa as pequenas peças de catálogo; origem do estator assumida alemã porque o corte e a colagem são feitos lá; não foi pedida nenhuma decisão aduaneira.

O que devem preparar já os fornecedores em Portugal?

As entidades compradoras pediriam aos fornecedores «uma autodeclaração, ou um documento equivalente» [3]. Essa declaração só vale o que valem os dados das suas peças, e a nossa análise gratuita spec to shortlist é uma forma de começar, mostrando que peças podem ser feitas em Portugal ou na UE:

  • Registe a origem por referência, com a declaração escrita do fornecedor e a data. Pergunte onde a peça foi feita, não de onde foi expedida.
  • Registe o valor à saída de fábrica por linha, para poder refazer a conta quando as regras mudarem.
  • Encontre as linhas decisivas: as uma ou duas linhas fora da UE que mais mexem na quota, e um fabricante europeu para cada uma. Na maioria dos produtos são ímanes, motores e eletrónica, como mostramos em o que os produtores portugueses não conseguem fabricar e em ímanes de terras raras depois de 10 de novembro.

As cláusulas de exceção não são um plano: as entidades compradoras podem dispensar a exigência acima de uma diferença de custo de 25% na contratação pública ou de 30% nos regimes de apoio [3], e a CLEPA quer apertá-las [8].

O que fazer a seguir

  1. Pegue no seu produto principal e preencha a tabela acima: todas as linhas, preço à saída de fábrica, país de origem declarado por escrito pelo fornecedor. Calcule só UE e UE mais parceiros.
  2. Para o componente que vende, verifique a regra do Anexo 22-01 para a sua posição pautal e, se a resposta decidir um concurso, peça uma Informação Vinculativa em matéria de Origem [10].
  3. Se quiser os dados num só sítio: um pacote de dados técnicos da GETMILK guarda origem, materiais e certificados por peça, a partir de 150 € por peça, pronto para uma autodeclaração. Se vende só a mercados privados e ninguém lhe pede a origem, pode esperar pelo texto final.

Referências

  1. European Commission, DG GROW. Industrial Accelerator Act: COM(2026)100 and accompanying documents (4 de março de 2026)
  2. European Commission. Annexes to the proposal for a Regulation establishing a framework of measures for the acceleration of industrial capacity and decarbonisation in strategic sectors, COM(2026) 100 final (4 de março de 2026)
  3. European Commission. Proposal for a Regulation establishing a framework of measures for the acceleration of industrial capacity and decarbonisation in strategic sectors (Industrial Accelerator Act), COM(2026) 100 final (4 de março de 2026)
  4. European Commission. The Industrial Accelerator Act: factsheet (março de 2026)
  5. European Parliament. Industrial Accelerator Act, Legislative Train Schedule (atualizado a 1 de agosto de 2026)
  6. Council of the EU, Presidency. Industrial Accelerator Act: Union Origin Options Paper, WK 11081/2026 (30 de julho de 2026)
  7. European Commission, DG TAXUD. Non-preferential rules of origin (consultado a 28 de setembro de 2026)
  8. CLEPA, European Association of Automotive Suppliers. Position paper: Industrial Accelerator Act (abril de 2026)
  9. SMEunited. SME priorities on the Industrial Accelerator Act (15 de julho de 2026)
  10. European Commission, DG TAXUD. Binding origin information (BOI) (consultado a 28 de setembro de 2026)
  11. European Parliamentary Research Service. China's rare-earth export restrictions (At a glance) (24 de novembro de 2025)
  12. Neo Performance Materials. Neo Performance Materials opens state-of-the-art permanent magnet facility in Europe (22 de setembro de 2025)

Perguntas frequentes

Que percentagem de conteúdo europeu exige o Industrial Accelerator Act?
Depende do produto. Para veículos elétricos em contratação pública, a proposta exige montagem na UE e pelo menos 70% do preço à saída de fábrica dos componentes, sem a bateria, de origem na União, e mais tarde testes separados de 50% para os componentes do grupo motopropulsor elétrico e para os sistemas eletrónicos principais. Para o fotovoltaico e as bombas de calor, indica produtos ou componentes-chave que têm de ter origem na UE.
O Industrial Accelerator Act já está em vigor?
Não. Em setembro de 2026 é uma proposta (procedimento 2026/0068(COD)). As comissões do Parlamento preparavam um relatório conjunto e o COREPER I do Conselho ia discutir a 7 de outubro de 2026 que conteúdo de que países conta. Os limiares e a lista de países ainda podem mudar.
Um componente é de «origem na União» se metade das peças for importada?
Pode ser. O teste dos veículos conta cada componente como originário da União ou não. A origem de um componente segue a regra aduaneira da última transformação substancial, não a percentagem de conteúdo europeu no seu interior. Verifique se o Anexo 22-01 das regras aduaneiras fixa uma regra específica para a sua posição pautal.
Como obter segurança jurídica sobre a origem da minha peça?
Peça à autoridade aduaneira uma Informação Vinculativa em matéria de Origem (IVO). A decisão vincula o titular e todas as alfândegas da UE e vale normalmente três anos, para os bens e o processo de produção que descreve.

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