Nenhuma lei portuguesa ou europeia manda destruir painéis solares que funcionam, mas em 2023 os países da UE declararam como preparadas para reutilização apenas cerca de 142 das 58.474 toneladas de painéis que recolheram, e Portugal não reutilizou nenhuma das suas 328 toneladas. Entretanto, 655 milhões de pessoas não tinham eletricidade em 2024. O estatuto de resíduo, uma meta de reciclagem que a trituração cumpre, os ensaios exigidos a cada painel para exportar e o custo desses ensaios fazem da trituração a saída legal mais barata.
A 24 de setembro de 2026, numa feira de energia na Exponor, em Matosinhos, um expositor disse-nos que ia deitar fora um grande lote de painéis solares e perguntou se os queríamos ir buscar. Em 2024, 655 milhões de pessoas não tinham eletricidade [1]. Estará a Europa a destruir painéis que ainda funcionam enquanto essas pessoas esperam? A resposta honesta é mais incómoda do que um escândalo. Nenhuma lei portuguesa ou europeia manda destruir painéis que funcionam. Mas um painel descartado é legalmente um resíduo, a meta de reciclagem cumpre-se só com trituração, exportar um painel usado exige um registo de ensaio por unidade e o ensaio custa mais do que o painel vale. Ninguém é obrigado a triturar, pelo menos até dezembro de 2027 [2]. O sistema limita-se a fazer da trituração a saída legal mais barata.
Factos-chave
- 655 milhões de pessoas não tinham eletricidade em 2024, 86% delas na África Subsariana [1]. A contagem própria da AIE é de 730 milhões [3].
- Perto de mil milhões de pessoas dependem de unidades de saúde sem eletricidade ou com eletricidade pouco fiável [4].
- Em 2023, os países da UE recolheram cerca de 58.474 t de painéis solares como resíduo e declararam cerca de 142 t preparadas para reutilização, uns 0,24% (soma nossa dos dados do Eurostat) [5].
- Portugal recolheu 328 t nesse ano, reciclou 245 t e preparou 0 t para reutilização [5].
- Os painéis retirados cedo, por exemplo numa repotenciação, podem ainda dar 90% ou mais da potência original [6].
- 86,6% do valor das importações portuguesas de módulos solares veio da China em 2024 [7].
O que vimos na feira
Observação direta de uma tarde, não um inquérito. Não verificámos o que os expositores nos disseram.
Painéis sem destino. Uma empresa de energia e construção contou-nos que vinha aí um grande desmantelamento, qualquer coisa como 250 MW de painéis instalados, e que iam simplesmente deitá-los fora. A proposta foi direta: venham buscá-los. Um instalador fotovoltaico tinha painéis parados e não sabia o que fazer com eles. Não vimos esses painéis nem verificámos o seu estado, e o número de 250 MW é deles, não nosso. Ninguém falou de uma lei que os obrigasse a destruir fosse o que fosse. Pareciam simplesmente não ter comprador nem próximo passo.
Distribuidores, não fabricantes. Os maiores stands de energia solar eram de distribuidores que vendiam sobretudo produtos fabricados na China. Uma parede de logótipos mostrava AIKO, Trina Solar, Huawei e Solis. Alguns stands tinham marcas alemãs e austríacas.
Empresas familiares. Muitos dos expositores com quem falámos eram empresas familiares. Um fundador contou-nos que a empresa tem milhares de clientes e que os filhos já estão a assumir o negócio.
O nosso argumento é simples. Cerca de 200 milhões de pessoas ainda iluminam a casa sobretudo com candeeiros a querosene, óleo ou gasóleo [1], e muitos centros de saúde em África e no Sul da Ásia não têm eletricidade fiável [8], enquanto na Europa painéis que talvez ainda funcionem são entregues para trituração. O resto do artigo verifica quanto disto resiste aos números.
Porque é que painéis que funcionam acabam triturados na Europa?
Não é porque uma lei o mande. Quatro regras e uma diferença de preço empurram no mesmo sentido.
Um painel descartado é resíduo, seja qual for o seu estado. A lei europeia define resíduo como qualquer objeto de que o detentor se desfaz, tem intenção de se desfazer ou é obrigado a desfazer-se [9], e os painéis solares estão abrangidos pela diretiva REEE, dos resíduos elétricos e eletrónicos [10]. Um painel entregue depois de uma repotenciação, de uma troca em garantia ou de uma tempestade passa a ser REEE nesse momento. Só volta a ser produto através da preparação para reutilização por um operador licenciado [9]. Portugal não declarou nenhuma tonelada em nenhum ano entre 2019 e 2023 [5].
A meta não distingue reutilização de reciclagem. A diretiva fixa 80% para preparação para reutilização e reciclagem, um único valor conjunto [10]. A trituração cumpre-o. A própria avaliação da Comissão, de 2025, nota que não há requisitos mínimos de tratamento vinculativos para painéis fotovoltaicos [11].
Exportar um painel usado exige um registo por painel. O Anexo VI da diretiva exige um ensaio de funcionamento e um registo para cada artigo, uma fatura que declare que está totalmente funcional e embalagem de proteção. Sem isso, presume-se que a carga é uma transferência ilegal de resíduos [10]. Desde janeiro de 2025, qualquer exportação de resíduos elétricos exige ainda o consentimento prévio do país de destino [12]; a partir de 21 de maio de 2027, os resíduos não perigosos só poderão ir para países fora da OCDE que constem de uma lista da UE [13].
O ensaio custa mais do que o painel. Os módulos novos correntes custavam cerca de 0,10 a 0,13 € por watt entre dezembro de 2025 e setembro de 2026 [14]; os usados estavam anunciados a 0,024 a 0,042 € no SecondSol, uma plataforma europeia de comércio, em setembro de 2026 [15]. Para um painel de 400 watts, são cerca de 10 a 17 € usado contra 40 a 52 € novo (contas nossas). O fundador da 2nd Life Solar, em Hamburgo, afirmou que, quando um módulo velho acaba de ser testado, já se gastou mais do que ele vale [16].
A partir de dezembro de 2027, uma regra vai exigir destruição. Com o Regulamento Europeu do Trabalho Forçado, aplicável a partir de 14 de dezembro de 2027, os produtos proibidos por trabalho forçado têm de ser reciclados ou, quando isso não for possível, inutilizados. Só os bens perecíveis podem ser doados [2]. É a única obrigação legal de destruir painéis funcionais que encontrámos, e ainda não está em vigor.
Quanto está em jogo?
Os números oficiais são pequenos, e é essa a questão.
| Painéis solares, 2023 | UE (soma dos Estados que reportam) | Portugal |
|---|---|---|
| Colocados no mercado | cerca de 3.334.694 t | 52.809 t |
| Recolhidos como resíduo | cerca de 58.474 t | 328 t |
| Preparados para reutilização | cerca de 142 t | 0 t |
| Parte do recolhido reutilizada | cerca de 0,24% | 0% |
Fonte: estatísticas REEE do Eurostat para painéis fotovoltaicos; totais e percentagens da UE calculados por nós [5].
Os painéis vendidos em 2023 só serão resíduo daqui a décadas, por isso isto não é uma taxa de recolha. Mostra quão pouco do que regressa é reutilizado. A França, com uma linha dedicada, reutiliza cerca de 1% e aponta para 5 a 7% [17].
Os volumes estão a crescer. Portugal tinha 7.326 MW de potência solar em julho de 2026 [18]. Só no primeiro semestre de 2026, o Electrão recolheu 3.356 t de painéis, sobretudo depois das tempestades no centro do país [19].
Quantos ainda funcionam? O programa de investigação fotovoltaica da AIE (IEA-PVPS) diz que quase não há dados reais [6]. Depois da triagem, a parte reutilizável vai de pouco mais de 10% nos módulos com fissuras ou defeitos de soldadura até 95% quando só falhou um díodo de bypass [6].
O que corre mal nas exportações?
«Mandá-los para África» já foi tentado, e correu mal. A PV CYCLE, o sistema de recolha da indústria, diz que os painéis em bom estado são revendidos, reinstalados noutro local ou enviados ilegalmente para fora da Europa [20]. É o contra-argumento mais forte ao que ouvimos na feira: alguns painéis que funcionam escapam do sistema antes da trituradora. Em 2020, a Operação BlackSun, em Itália, encontrou painéis enviados para reciclagem que tinham sido reetiquetados e exportados como usados para sete países [21]. Um comentário de 2026 na Nature Communications descreve uma acumulação descontrolada de painéis usados importados na Nigéria e refere que os módulos recondicionados exportados perdem muitas vezes 10 a 20% da potência [22]. A Nigéria é também o país com mais pessoas sem eletricidade, 87 milhões [1]. Painéis sem ensaio nem plano de fim de vida não são ajuda. São resíduos que chegam mais tarde.
O que faria funcionar a segunda vida?
Não é preciso inventar tecnologia nova. O painel tem de continuar a ser um produto, com prova de que funciona.
- Testar antes de descartar. Um painel testado no desmantelamento ou no distribuidor nunca chega a ser resíduo. O IEA-PVPS descreve uma triagem prática: inspeção visual, curva I-V, imagem térmica e eletroluminescência, ensaios de isolamento e amostragem em laboratório [6].
- Um registo para cada painel. Potência medida, imagens e resultados de isolamento, associados ao painel. É o que o Anexo VI pede [10].
- Uma garantia e um responsável claro pelo risco. Com a nova diretiva europeia de responsabilidade pelos produtos, quem modifica substancialmente um produto responde como fabricante [23].
- Dinheiro para cobrir a diferença. Em França, a entidade gestora nacional Soren tem uma linha de reutilização com a empresa social ENVIE 2E Aquitaine, apoiada por um fundo de 3 milhões de euros para 2023 a 2027 [17].
- Compradores que precisam de energia barata em pequena escala. A 2nd Life Solar vende módulos testados a um terço ou metade do preço de um novo a empresas, ONG e distribuidores do Norte de África [24].
Os centros de saúde e as escolas são o destino óbvio. A OMS estima em 4,9 mil milhões de dólares o custo de eletrificar as unidades de saúde [4], e mais de metade das escolas primárias dos países menos desenvolvidos não tem eletricidade [25]. Não encontrámos nenhum programa europeu que envie painéis testados de segunda vida para centros de saúde ou escolas em grande escala. Um programa bem feito enviaria painéis documentados para um instalador identificado, dimensionados para o consumo real do edifício, com recolha garantida no país de destino.
Quem vende energia solar em Portugal?
Os dados do comércio batem certo com o que vimos. A China forneceu 86,6% do valor das importações portuguesas de módulos em 2024 (91,0% em peso) [7] e 98% das da UE [26]. Portugal é sobretudo uma plataforma de trânsito, não um fabricante: exportou 578,6 milhões de euros em módulos em 2024, 91,5% desse valor para Espanha [7]. O IEA-PVPS descreve a indústria fotovoltaica portuguesa como sobretudo orientada para serviços [27]. Quem fica com os painéis no fim são importadores, distribuidores e instaladores.
A maioria é pequena. As PME são 99,9% das empresas portuguesas e 77,1% do emprego [28]. O número tantas vezes citado de que as empresas familiares são 70 a 80% das empresas portuguesas é uma estimativa sem medição: o estudo da Comissão Europeia de 2008/2009 de onde vem classificava-o como opinião de peritos [29], e a Associação das Empresas Familiares repete-o sem método [30]. O fundador que conhecemos é uma pessoa, não uma estatística. Mas empresas como essa, que conhecem os clientes e vivem de instalar, são o sítio natural para testar e revender, à medida que a geração seguinte toma conta do negócio.
O que pode a GETMILK fazer?
A GETMILK mapeia os fabricantes que produzem em Portugal. Não testamos nem recondicionamos painéis. O que podemos fazer é modesto:
- Mapear quem pode testar e preparar painéis para reutilização em Portugal e nos países próximos: operadores de tratamento licenciados, laboratórios de ensaio e recondicionadores, com provas para cada um.
- Ligar oferta certificada de segunda vida a compradores, de um instalador com painéis em armazém a uma ONG que equipa centros de saúde, através do nosso serviço de sourcing gerido.
- Tratar da documentação. Um registo de ensaio por painel, os documentos do Anexo VI e uma declaração de garantia formam um pequeno pacote de dados técnicos.
Se tem, testa ou precisa de painéis usados, fale connosco. Um painel que ainda funciona deve acabar num telhado ou num centro de saúde, não numa trituradora, nem despejado sem ensaio num sítio onde se torna resíduo de outra pessoa.
Referências
- IEA, IRENA, UNSD, World Bank and WHO. Tracking SDG7: The Energy Progress Report 2026 (24 de junho de 2026)
- EUR-Lex. Regulation (EU) 2024/3015 prohibiting products made with forced labour on the Union market (2024)
- International Energy Agency (IEA). Access to electricity stagnates, leaving globally 730 million in the dark (9 de outubro de 2025)
- World Health Organization (WHO). Close to one billion people globally are served by health-care facilities with no electricity access or with unreliable electricity (14 de janeiro de 2023)
- Eurostat. Waste electrical and electronic equipment by waste management operations: photovoltaic panels (env_waseleeos) (atualizado a 8 de abril de 2026)
- IEA PVPS. Performance and Reliability Aspects of 2nd Life PV Modules (IEA-PVPS T13-37:2026) (fevereiro de 2026)
- Eurostat Comext. EU trade by CN8 (DS-045409): photovoltaic modules, CN 8541 43 00, Portugal (atualizado a 15 de setembro de 2026)
- WHO, World Bank, IRENA and SEforALL. Energizing Health: Accelerating Electricity Access in Health-Care Facilities (janeiro de 2023)
- EUR-Lex. Directive 2008/98/EC on waste (Waste Framework Directive), consolidated text (18 de fevereiro de 2024)
- EUR-Lex. Directive 2012/19/EU on waste electrical and electronic equipment (WEEE), consolidated text (8 de abril de 2024)
- European Commission. SWD(2025) 184: evaluation of the WEEE Directive (2 de julho de 2025)
- Secretariat of the Basel Convention. E-waste amendments: overview (consultado em setembro de 2026)
- EUR-Lex. Regulation (EU) 2024/1157 on shipments of waste (2024)
- pvXchange. pvXchange Price Index and monthly market analyses (dezembro de 2025 a setembro de 2026)
- SecondSol. SecondSol marketplace, used module listings (consultado em 27 de setembro de 2026)
- QUASAR (EU research project). The economic and climate case for second-life PV modules (26 de agosto de 2025)
- pv magazine France. Réemploi des panneaux solaires : Soren amorce la structuration d'une filière (18 de junho de 2025)
- DGEG, Direção-Geral de Energia e Geologia. Estatísticas Rápidas das Renováveis n.º 260 (julho de 2026)
- Electrão. Electrão envia para reciclagem 24 mil toneladas de eléctricos no primeiro semestre e expande rede de recolha (julho de 2026)
- PV CYCLE. Annual Report 2025 (consultado em setembro de 2026)
- pv magazine. Italian PV panels sent for recycling were instead smuggled to Syria and Africa (5 de fevereiro de 2020)
- Huang and Long, Nature Communications 17:1928. Toward traceable global systems for end-of-life photovoltaic waste (19 de fevereiro de 2026)
- EUR-Lex. Directive (EU) 2024/2853 on liability for defective products (2024)
- Solarenergie-Förderverein Deutschland (SFV). Interview with 2ndlife Solar on saving modules from recycling (12 de setembro de 2023)
- United Nations. The Sustainable Development Goals Report 2026: Goal 4 (2026)
- Eurostat. EU trade in solar panels in 2024 (9 de outubro de 2025)
- IEA PVPS. Portugal: member country page (2025)
- European Commission. SME Country Fact Sheet Portugal 2026 (2026)
- European Commission and KMU Forschung Austria. Overview of Family-Business-Relevant Issues (2008/2009)
- AEF, Associação das Empresas Familiares. Quem somos (consultado em setembro de 2026)
Perguntas frequentes
- Os painéis solares usados podem ser reutilizados?
- Sim, se cada painel for testado primeiro. Os painéis retirados cedo, por exemplo numa repotenciação, podem ainda dar 90% ou mais da potência original, mas depois da triagem a parte reutilizável vai de pouco mais de 10% a 95%, conforme o defeito (IEA-PVPS, 2026). Um painel reutilizável precisa de inspeção visual, curva I-V, ensaios de eletroluminescência e de isolamento, e de um registo escrito do ensaio.
- Porque é que se destroem painéis solares que ainda funcionam?
- Nenhuma lei portuguesa ou europeia o obriga. Um painel passa a ser resíduo quando o dono se desfaz dele, e a meta europeia para esta categoria (80% preparado para reutilização e reciclado) cumpre-se só com reciclagem. Exportar um painel usado exige um registo de ensaio por unidade e o ensaio custa mais do que o painel usado vale, por isso a trituração é a saída legal mais barata. A partir de 14 de dezembro de 2027, os produtos proibidos pelo Regulamento Europeu do Trabalho Forçado têm de ser reciclados ou inutilizados.
- Quantas pessoas no mundo não têm eletricidade?
- 655 milhões em 2024, segundo o relatório Tracking SDG7 2026; a contagem própria da AIE é de 730 milhões. Cerca de 86% vivem na África Subsariana, e a Nigéria tem o maior défice, com 87 milhões de pessoas.
- Posso doar ou exportar painéis solares usados para África?
- Só como produto testado. Pelo Anexo VI da Diretiva REEE, cada painel precisa de um ensaio de funcionamento e de um registo, e a fatura tem de declarar que está totalmente funcional; sem isso, presume-se que a carga é uma transferência ilegal de resíduos. Desde janeiro de 2025, as exportações de resíduos elétricos exigem também o consentimento prévio do país de destino. Já se acumulam na Nigéria painéis usados sem ensaio, por isso uma doação responsável precisa de um instalador local e de um plano de recolha.
- Quem recolhe os painéis solares em fim de vida em Portugal?
- Entidades gestoras licenciadas, como o Electrão e a ERP Portugal. Em 2023, Portugal recolheu 328 t de painéis solares, reciclou 245 t e não preparou nenhum para reutilização (Eurostat). Só no primeiro semestre de 2026, o Electrão recolheu 3.356 t, sobretudo depois das tempestades no centro do país.
